Sabemos
que o tempo está aqui connosco, coabitamos com ele. Por vezes é motivo para uma
boa tertúlia à moda antiga, onde tempo é coisa parca para tanta conversa
interessante. Podemos navegar de uma forma intemporal conseguindo manter a
mente abstrata das perniciosidades que nos rodeiam, podemos sorrir, podemos
demorar um abraço, podemos eternizar um beijo! O tempo, não é mais do que um
amigo sensível. A sua voz, ora de barítono, ora de tenor, é capaz de nos moldar
a conceção do incerto e do certo, do amor e do ódio, do desejo e da impotência,
é capaz de voar com a nossa mente até onde essa amizade começou, sem que para
isso seja necessário pedir autorização. E bem lá no fundo, só quer o nosso bem-estar,
alegrar o nosso dia, captar um momento e com ele, sorrir. E quantos sorrisos
cabem num pedaço de tempo? Cabem muitos. Cabem aqueles que conseguirmos perdoar
– com o passar dos anos, acredito que cada um de nós reaprenderá a sorrir todos
os dias – cabem sorrisos cobertos de alegria e de desilusão. Sim, desilusão,
daquelas deceções que o tempo, o nosso amigo sensível, se encarrega de inflamar
as nossas mentes de quando em vez, para nos moldar o ego. Tem tanto de
impiedoso e insensível, como de permissivo e humano. Impiedoso na medida em que
talha o rosto de cada um, como lhe dá na real gana e de uma forma irreversível,
não sendo pois, possível, escolher que parte de nós suportará a maior parte da
marca da sua passagem, por outro lado, a forma permissiva com que encaramos isso,
é a simbiose perfeita dessa passagem, tangível apenas por aqueles que conseguem
sentir, por dentro, a importância de sorrir todos os dias, pois que, por fora,
é o tempo quem sorri por nós!
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
domingo, 24 de setembro de 2017
Um quarto na pensão
A porta
clama devagar a sua velhice com um chiar prolongado, e deixa entrar o som de um
par de saltos altos que fazem ranger o velho chão de madeira na pensão. Vencido
pelo absinto, estou caído sob um colchão de molas calejado que me afunda no
centro da cama. A luz é reduzida e oiço a ignescência de um fósforo a acender
uma vela! Ao ouvido uma voz quente e mélica sussurra-me o refrão da última
música que tinha ouvido no bar ao som do piano. Lembro-me que a dancei com uma
mulher linda, mas não lhe perguntei o nome. Recebo um abraço e percebo que é a
mesma pessoa. Delicadamente desce a sua mão sob a minha fronte, fecha-me os
olhos e acaricia-me os lábios com os seus dedos compridos. Não tinha unhas de
gel, claramente eram dedos de pianista. Tenho a sensação que a última música
que dançámos foi tocada por alguém do bar para que ela a dançasse comigo. E
retomámos o momento… As palavras eram gestos, e os nossos corpos juntaram-se
num só em busca do ruído da eloquência. De braços entrelaçados, perfumámos o
corpo todo lingual e os dedos olhavam tudo por igual. Desejámos tudo em
silêncio e só quebrámos a regra quando atingimos simultaneamente o orgasmo. Foi
exímio. Inesperadamente cai uma lágrima do seu rosto que sinto cair na minha
mão, ao mesmo tempo que a sua mão me cobria a boca evitando perguntas.
Sosseguei porque senti nos seus lábios um sorriso confortante, e descansámos os
dois corpos forasteiros lado a lado como se sempre se tivessem amado!
- “São onze horas e trinta minutos”, o meu
relógio para invisuais acorda-me.
Ao meu
lado encontro um papel em braille:
- As notas do piano foram as palavras que
nos juntaram.
Obrigada pela noite.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Aguarela do outono
Estão
como que escondidas. As poucas folhas do outono ainda agora começaram a cair
das árvores que as seguravam. Lentamente caiem no chão e este transforma-se num
lindo manto dourado. Por baixo das folhas moram pequenas formigas voadoras que fruem
agora de um telhado seco que as protege das primeiras chuvas, enquanto aguardam
a boleia do primeiro cogumelo que brota da terra, para sacudirem as asas.
Um manto
dourado… estalante!
Um cenário
numa aguarela retratada na minha mente, com o titulo: “sou o outono”!
O vento
sopra agora mais frio que antes. É como que um arrepio e aconchego ao mesmo
tempo. Tal como a camisola de lã vestida em cima da pele, o frio entra pela
malha grossa da camiseta, mas de resto extinto pelos filamentos que roçam directamente
na pele e a aquecem de novo. As sandálias ganham cabedal e sola grossa e vão
sonorizando a quebra das folhas no chão, por onde caminha a Alma procurando do
outro lado da aguarela um refúgio para sustentar a beleza que ali existe.
(Entretanto)
As pinceladas
começam agora a enodoar a tela com tons cinza. Será que não podemos ficar com
um céu azul?
A Lei
cruel do inconsciente é assim mesmo. Os sonhos que idealizamos e gostaríamos de
partilhar com a realidade, não passam disso mesmo. De sonhos!
Antes
que o vento levante o ténue telhado das formigas voadoras, ou uma vassoura
trajada de pincel borre a minha aguarela, vou submergir neste pensamento e
sonhar mais uma vez!
Como a
natureza é bela! Nós é que damos cabo dela!
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