segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o tempo que nos move...




Sabemos que o tempo está aqui connosco, coabitamos com ele. Por vezes é motivo para uma boa tertúlia à moda antiga, onde tempo é coisa parca para tanta conversa interessante. Podemos navegar de uma forma intemporal conseguindo manter a mente abstrata das perniciosidades que nos rodeiam, podemos sorrir, podemos demorar um abraço, podemos eternizar um beijo! O tempo, não é mais do que um amigo sensível. A sua voz, ora de barítono, ora de tenor, é capaz de nos moldar a conceção do incerto e do certo, do amor e do ódio, do desejo e da impotência, é capaz de voar com a nossa mente até onde essa amizade começou, sem que para isso seja necessário pedir autorização. E bem lá no fundo, só quer o nosso bem-estar, alegrar o nosso dia, captar um momento e com ele, sorrir. E quantos sorrisos cabem num pedaço de tempo? Cabem muitos. Cabem aqueles que conseguirmos perdoar – com o passar dos anos, acredito que cada um de nós reaprenderá a sorrir todos os dias – cabem sorrisos cobertos de alegria e de desilusão. Sim, desilusão, daquelas deceções que o tempo, o nosso amigo sensível, se encarrega de inflamar as nossas mentes de quando em vez, para nos moldar o ego. Tem tanto de impiedoso e insensível, como de permissivo e humano. Impiedoso na medida em que talha o rosto de cada um, como lhe dá na real gana e de uma forma irreversível, não sendo pois, possível, escolher que parte de nós suportará a maior parte da marca da sua passagem, por outro lado, a forma permissiva com que encaramos isso, é a simbiose perfeita dessa passagem, tangível apenas por aqueles que conseguem sentir, por dentro, a importância de sorrir todos os dias, pois que, por fora, é o tempo quem sorri por nós!

domingo, 24 de setembro de 2017

Um quarto na pensão



A porta clama devagar a sua velhice com um chiar prolongado, e deixa entrar o som de um par de saltos altos que fazem ranger o velho chão de madeira na pensão. Vencido pelo absinto, estou caído sob um colchão de molas calejado que me afunda no centro da cama. A luz é reduzida e oiço a ignescência de um fósforo a acender uma vela! Ao ouvido uma voz quente e mélica sussurra-me o refrão da última música que tinha ouvido no bar ao som do piano. Lembro-me que a dancei com uma mulher linda, mas não lhe perguntei o nome. Recebo um abraço e percebo que é a mesma pessoa. Delicadamente desce a sua mão sob a minha fronte, fecha-me os olhos e acaricia-me os lábios com os seus dedos compridos. Não tinha unhas de gel, claramente eram dedos de pianista. Tenho a sensação que a última música que dançámos foi tocada por alguém do bar para que ela a dançasse comigo. E retomámos o momento… As palavras eram gestos, e os nossos corpos juntaram-se num só em busca do ruído da eloquência. De braços entrelaçados, perfumámos o corpo todo lingual e os dedos olhavam tudo por igual. Desejámos tudo em silêncio e só quebrámos a regra quando atingimos simultaneamente o orgasmo. Foi exímio. Inesperadamente cai uma lágrima do seu rosto que sinto cair na minha mão, ao mesmo tempo que a sua mão me cobria a boca evitando perguntas. Sosseguei porque senti nos seus lábios um sorriso confortante, e descansámos os dois corpos forasteiros lado a lado como se sempre se tivessem amado!

- “São onze horas e trinta minutos”, o meu relógio para invisuais acorda-me.

Ao meu lado encontro um papel em braille:
- As notas do piano foram as palavras que nos juntaram.
Obrigada pela noite.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Aguarela do outono



Estão como que escondidas. As poucas folhas do outono ainda agora começaram a cair das árvores que as seguravam. Lentamente caiem no chão e este transforma-se num lindo manto dourado. Por baixo das folhas moram pequenas formigas voadoras que fruem agora de um telhado seco que as protege das primeiras chuvas, enquanto aguardam a boleia do primeiro cogumelo que brota da terra, para sacudirem as asas.

Um manto dourado… estalante!

Um cenário numa aguarela retratada na minha mente, com o titulo: “sou o outono”!

O vento sopra agora mais frio que antes. É como que um arrepio e aconchego ao mesmo tempo. Tal como a camisola de lã vestida em cima da pele, o frio entra pela malha grossa da camiseta, mas de resto extinto pelos filamentos que roçam directamente na pele e a aquecem de novo. As sandálias ganham cabedal e sola grossa e vão sonorizando a quebra das folhas no chão, por onde caminha a Alma procurando do outro lado da aguarela um refúgio para sustentar a beleza que ali existe.

(Entretanto)

As pinceladas começam agora a enodoar a tela com tons cinza. Será que não podemos ficar com um céu azul?

A Lei cruel do inconsciente é assim mesmo. Os sonhos que idealizamos e gostaríamos de partilhar com a realidade, não passam disso mesmo. De sonhos!

Antes que o vento levante o ténue telhado das formigas voadoras, ou uma vassoura trajada de pincel borre a minha aguarela, vou submergir neste pensamento e sonhar mais uma vez!

Como a natureza é bela! Nós é que damos cabo dela!